Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos corações sábios. Salmo 90,12.

A vida é uma escola. Ela nos ensina a ser espertos, calcular riscos, investir para receber mais e especialmente cuidar de nós mesmos. Mas não é exatamente isso que o Salmo 90,12 recomenda. Esta peça poética de Moisés fornece preciosas lições a todos os que perceberam que somos mal orientados se não buscamos instrução do Senhor. Uma vez que o profeta foi inspirado por Deus, estamos certos que não se pode encontrar em nenhuma outra escola. Isaías prometeu (e Jesus repetiu) que Deus ensinaria aos que seriamente desejassem matricular-se em Sua escola (Is 54,13; Jo 6,45).

É uma oração que articula este pedido: Ensina-nos a contar nossos dias. O tempo não pára. Ele passa. Alguns se preocupam com o envelhecimento somente quando os anos já foram. Não ouviram a advertência do Pregador: Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias(…) (Ec 12,1). Os dias desperdiçados são justamente os que não passaram nenhuma lição sábia para o coração. Mesmo que a maioria dos homens despreze a instrução que vem do Criador, o fiel servo pede, insistentemente, que Deus o ensine lhe que tem importância eterna.

Educação secular valoriza informação e inteligência. Quem sabe mais pode resolver problemas mais eficientemente e, assim, toma a vantagem. As escolas se interessam mais por matricular os melhores alunos. Universidades elites despejam seus formandos nas profissões, nas indústrias, laboratórios e altos escalões do governo. Benefícios financeiros são invejáveis. A sociedade reputa mais feliz quem desfruta mais privilégios neste mundo globalizado que promove e enriquece seus melhores jogadores. Valores secundários, tais como distribuição justa da renda, cuidado especial para os marginalizados e esquecidos têm menos importância. E nem se fala da busca em primeiro lugar do Reino de Deus.

Mas o lado negativo desta corrida à busca do conhecimento e das vantagens materiais, com que ele coroa seus corredores mais bem sucedidos, já foi descrito por um dos seus mais famosos adeptos: Mark Twain, escritor americano. Ele utilizou seu extraordinário talento para escrever livros há mais de cem anos. Suas obras são conhecidas e apreciadas por milhões de crianças e adultos. Declarou este ateu em sua autobiografia: “O único presente não envenenado que a vida concedeu é a morte.” No Salmo 90, Moisés pede que Deus nos ensine a (…)contar os nossos dias para alcançar um coração sábio.

Consideremos alguns elementos chaves nesta oração: Primeiro, somente Deus conhece quantos dias restam de nossa vida. A certeza da morte é inegável. Igualmente certo é o fato de ninguém saber em que dia ela virá. Deus, nosso Professor Supremo, conhecedor de todas as coisas, marca a carga horária na escola da vida. Ele é quem assina o diploma ou reprova os alunos. Segundo, os melhores alunos pedem ajuda de Deus para evitar o desperdício do tempo. Dias não-contados referem-se a dias não-aproveitados, horas em que nada se fez ou não se aprendeu nada de valor. Nenhuma palavra de encorajamento emanou da boca e nenhuma influência sadia impeliu alguém em direção de Deus.

Terceiro, o objetivo das lições de Deus visa alcançar um coração sábio. Ele mostra o caminho e motiva seus servos a progredir nessa direção. Revelou sua infalível Palavra para ser luz e lâmpada para os pés dos que andam nos caminhos sinuosas deste mundo. Quarto, indagaremos sobre o que quer dizer “coração sábio”. Estas palavras têm um paralelo na mensagem de Paulo: Não cessamos de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em todo a sabedoria e entendimento espiritual. (Cl1,9).

Se Deus nos ensina clara e inconfundívelmente Sua vontade, não ficaremos mais presos à cegueira que baseia suas decisões no por acaso de loteria. Infinitamente melhor é escolher debaixo da direção daquele que conhece o futuro tão plenamente como o passado (Rm 8,14). Sabedoria quer dizer inteligência que encherga bem, além do horizonte desta vida curta e insegura. Escolher de acordo com a orientação bíblica permite o servo ecoar as palavras do famoso missionário David Brainerd no limiar da morte. “Não teria vivido a minha vida diferentemente do que vivi por nada neste mundo.” Jim Elliot, inspirado pela sabedoria de Brainerd, foi morto por uma lança dos selvagens aucas no Equador, em 1956. Disse o mártir: “Não é tolo quem larga o que não pode segurar para pegar o que não pode perder.” Quem, além de Deus, pode ensinar a um filho de Adão esta realidade? Ninguém nasce sábio. Pecadores buscam prazer e sucesso com uma visão curta. Não olham além da morte física, enquanto o homem que quer aprender a sabedoria de Deus avalia tudo à luz da eternidade.

Paulo disse que, se recebermos sabedoria e entendimento espiritual. viveremos (…)de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado(Cl 1,10). Uma definição de pecado destaca precisamente este aspeto – desagradar a Deus agindo de maneira indigna do Pai que nos gerou pelo Seu Santo Espírito.

Moisés percebeu a importância de alcançar sabedoria. Durante quarenta anos, foi instruído em tudo o que havia de melhor da sabedoria humana. Matou o egípcio que maltratava um israelita. Era uma decisão aparentemente inteligente, mas não sábia. Depois fugiu para Midiã onde teve tempo para as aulas de Deus. Durante quarenta anos, foi adquirindo do alto sabedoria que lhe serviu tão bem durante os últimos anos do governo do Povo Escolhido. Mesmo sendo Moisés um servo humilde, Deus o escolheu para conduzir Israel para fora do Egito até a Terra da Promissão e escrever os primeiros cinco livros da Bíblia. Foi este mesmo Moisés que escreveu o Salmo 90 e gravou este pedido e ajuda para contar os dias, de modo que alcançou a sabedoria.

Dias são desperdiçados porque não os contamos como preciosas pérolas que podem ser trocadas por sabedoria do alto. O Salmo 90,12 aponta a direção de verdadeiro sucesso. Pedir a instrução do Criador infinito em poder e sabedoria é o único meio de chegarmos ao fim da vida felizes e bem-sucedidos aos olhos de Deus. Para se viver bem, no mundo e no céu, sabedoria do alto (Tg 3,17) é tudo!

Jonathan Edwards creu que a sabedoria celestial valia mais que dinheiro ou fama. Ele e sua mulher santa tiveram setecentos e vinte e nove descendentes. Dessa família surgiram trezentos pregadores, sessenta e cinco professores universitários, treze reitores de universidades, sessenta autores de bons livros, dois deputados do congresso americano e um vice-presidente do país. Que explicação única haveria para um fenômeno como a família de Edwards, senão a busca de um coração sábio vindo de Deus e a valorização do tempo que o Senhor lhe concedeu?

RUSSELL P. SHEDD,
missionário há mais de 35 anos no Brasil, é teólogo, escritor e conferencista.

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